Faça a Coisa Certa
Harry M. Jansen Kraemer, Jr.
Os escândalos corporativos nos fazem perguntar: Onde isso vai parar? Qual é o próximo? Como isso poderia ter sido evitado? Quem deve ser responsabilizado? Como podemos operar eticamente? O que fazer para dar o exemplo?
Tenho orgulho de fazer parte da equipe da Baxter, uma empresa que tem profundo efeito sobre a saúde e o bem-estar de milhões de pessoas. Somos uma empresa global da área de assistência médica, com mais de oito bilhões de dólares em vendas e 48 mil funcionários em 100 países. Embora o sucesso financeiro seja importante, o mais importante é o nosso modo de fazer negócios. Desenvolvemos produtos que salvam vidas. Vendemos esses produtos, e precisamos agir com responsabilidade.
Procuramos viver a cada dia os valores da Baxter: agimos de modo transparente, estabelecemos diálogo com stakeholders e adotamos uma abordagem progressiva em direção à governança corporativa. Acreditamos, como nosso primeiro presidente William Graham dizia há mais de cinqüenta anos, que podemos nos sair bem, e vamos conseguir isso, agindo bem. Alcançamos este objetivo vivendo valores compartilhados de respeito, sensibilidade e resultados; trabalhando em prol de objetivos comuns, colocando a meta sempre além e liderando pelo exemplo.
Ao aplicar esses princípios, criamos cultura e processos que não deixam espaço para a ambigüidade e garantem a responsabilidade com que conduzimos nossos negócios – um ambiente onde todos têm autonomia e se espera que façam a coisa certa.
Doze Lições
Desde que, mais de dez anos atrás, introduzimos os valores compartilhados de respeito, sensibilidade e resultados, aprendemos estas doze lições:
1. O verdadeiro sucesso está dentro da teia da cultura baseada em valores. O verdadeiro sucesso não está ligado a inúmeros programas e ferramentas, a supervisão e obediência. As ferramentas são úteis, mas nunca é demais enfatizar a importância de uma cultura baseada em valores.
2. A integridade define a estrutura de tudo o que devemos fazer. A integridade orienta nossas decisões. Para que a integridade entre em ação, precisamos saber o que é ela, como funciona e onde se encaixa em nossa vida profissional. Precisamos garantir que nossos processos, nossas políticas e nosso pessoal se integrem de modo a promover a força, a saúde e a longevidade da Baxter. Quando tomamos decisões éticas e inteligentes, fortalecemos nossa relações profissionais, criamos serviços e produtos com responsabilidade, instituímos práticas de negócios estratégica e fiscalmente sólidas e estabelecemos ligações profundas e duradouras com a comunidade. Tudo isso leva ao crescimento e a novas oportunidades.
3. É preciso criar uma cultura que estimule a aprendizagem contínua. Como a ética profissional nem sempre é em preto ou branco, precisamos desenvolver ferramentas e uma cultura que nos guiem quando estivermos na área cinzenta. A dificuldade de operar na área cinzenta, tão perto da linha, é que, quando a linha se afastar, você pode se descobrir do lado errado.
4. Diretrizes, regras e políticas, sozinhas, não são capazes de tornar ninguém honesto. Elas apenas apontam o caminho que devemos seguir. Conforme o código moral, cada um tem seu modo de pensar, sua visão. A tomada ética de decisões deve ser um processo ativo, dinâmico e proativo – examinar as questões sob perspectivas diversas, analisar a informação e pensar de maneira criativa – e não uma atividade cumprida a portas fechadas, por um grupo seleto de executivos.
5. Todo indivíduo precisa do mesmo conjunto de valores para orientá-lo em suas decisões diárias. Todo dia, as pessoas tomam decisões éticas ao conduzir seus negócios, e o líder não fica por trás delas, orientando. Um dos benefícios da criação deste tipo de cultura é que podemos ter confiança na autonomia de cada um e esperar que façam a coisa certa.
6. Assim como a liberdade, o valor dever ser conquistado e renovado diariamente. Existem muitas maneiras de fazer isso: treinando, comunicando coerente e constantemente, partilhando o conhecimento, reconhecendo a integridade e envolvendo pessoal de todos os níveis. Dada a importância que as práticas de negócios adquirem na crise de confiança em que vivemos, como nós, líderes, podemos sustentar e implementar programas éticos eficazes, que atendam às necessidades de todos?
7. A liderança começa de cima. Os funcionários, acionistas, clientes e stake-holders estão atentos. Eles esperam que sejamos responsáveis pelo que fazemos ou deixamos de fazer. Alguém tem de dar o exemplo, sendo um líder ético. Para ser um líder, é preciso aprender com todos, diariamente. Sua autoconfiança deve ser compensada por uma humildade saudável. Na Baxter, temos 48 mil funcionários, cada um dando sua contribuição em habilidade e visão. São eles que me mantêm em meu lugar. Minha medida de sucesso não está em dizer a eles o que fazer, mas em alavancar seu talento, para benefício dos stakeholders. Não estou interessado em estar certo; simplesmente quero ter a certeza de fazer a coisa certa.
8. Ser um líder significa ter honestidade e sinceridade consigo mesmo acerca do que está fazendo bem e do que precisa melhorar. Liderar com eficiência significa concentrar-se em uma comunicação franca e direta em torno de objetivos e expectativas, além de procurar e receber feedback continuamente; garantir que todos entendam o que e como estamos tentando fazer; e saber qual é o papel de cada membro da equipe. Para isso, é preciso procurar ativamente feedback e diálogo com todos os envolvidos. As oportunidades de melhorar são muitas. Tornar as metas cada vez mais ambiciosas é parte do papel de um verdadeiro líder.
9. Integridade é uma jornada, e não um destino final. O fluxo constante de novos empreendimentos, aquisições, parcerias e contratações traz uma responsabilidade constante pela avaliação, pelo monitoramento, pelo treinamento e pela comunicação. E com freqüência, novos mercados, oportunidades e tecnologias trazem dinâmicas, considerações éticas e áreas cinzentas inteiramente novas, onde só podemos transitar com ajuda da ética e da integridade. É mais fácil liderar quando as coisas vão bem. Em tempos de crise, de mudanças bruscas ou de incerteza, aumentam a necessidade de liderança e a vigilância sobre os líderes. Valores, integridade, liderança e credibilidade não são artigos que se pode pegar na prateleira em tempos difíceis.
10. Se você tem uma função de liderança, precisa assumir riscos. Você precisa esticar o pescoço, demarcar as areias movediças e tomar decisões difíceis sobre questões controversas, como bioética, política salarial de executivos ou aquecimento global. A Baxter foi uma das primeiras empresas a adotar princípios formais de governança e a incentivar a participação ativa de membros da diretoria.
11. Uma vez demonstrada a sua capacidade de liderança, você precisa melhorar sempre. O líder não deve ficar imobilizado depois de alcançar as primeiras metas. Liderar é perceber as oportunidades de melhoria e desafiar o status quo.
12. Se você conceder autonomia, disponibilizar as ferramentas e der o exemplo, as pessoas farão a coisa certa. Quando se faz a coisa certa, isso afeta a credibilidade e a reputação, facilita a atração e a retenção dos melhores elementos, favorece processos de negócios, intensifica a lealdade do cliente e oferece uma plataforma concreta para as contribuições à discussão de políticas. Todos devemos liderar pelo exemplo. Um aumento do número de regras e instrumentos de controle não provoca mudança de comportamento. Isso é algo que devemos fazer. Liderança é isto: não tentar estar sempre certo, mas procurar sempre fazer a coisa certa.
Harry M. Jansen Kraemer, Jr. é presidente e CEO da Baxter International, Inc. Este artigo foi adaptado de seu pronunciamento no Chicago Executives’ Club, e usado com permissão de Vital Speeches of the Day.
AÇÃO: Saia-se bem agindo bem.
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